Marcelo Marques

Novo Blog no ar.

espelho-meu-headerEu gostei desse texto, apaixonado que sou pela América e pelo seu côncavo e convexo. Vem do Blog Espelho Meu da bonitona Layce Santos. Novo na área, cheio de coisas interessantes, ele chegou, pra quem estava com saudade da moça. O texto foi feito por

Dear America, I won’t lose my hope

Foi assim: estivemos em relacionamento sério esse ano. Quando decidi ir te encontrar, foi pensando em me desafiar. Eu nunca fui a menina que te tinha nos meus fetiches. Desconfiava de ti. Cheguei com um pé atrás. Estranhei me ofereceres pão com Nutella no café da manhã. Só não reclamei pra não ser indelicada, mas nunca fui de comer doce antes das 8h. A minha surpresa foi que no dia seguinte eu já acordei pensando no teu açúcar. Tudo certo, me esperavas com ele na mesa. No terceiro dia eu queria te comer com açúcar em tudo. América, tu és o cigarro do mundo.

Puta merda, América, de novo? Acordei e não pude deixar de me espantar com teus resultados. Mais que nunca, o sonho americano virou pesadelo. Angela Davis e até Papa Francisco hoje, como eu, levantaram assustados.

Ainda não superamos que foi um dia desses que mataste o King of Love. Continuamos todos discordando do tanto que armas teus cidadãos com fogo e tão pouco com informações e pensamento crítico. Aliás, quando vamos resolver essa questão das tuas universidades tão caras, para tão poucos? Precisamos falar do sistema de saúde, também. Não que aqui eu possa me gabar. Mas teu desamparo completo me faz pensar que não te importas em nada com quem anda morrendo pelas tuas ruas. Ah, não há mais tempo de fingir que não sabemos de todas as guerras, ditaduras e esquemas de escravidão que financias por trás dos panos. Feio, América, muito feio.

Diziam, um dia, que és a própria liberdade. Era esse teu título e eu espero que agora ele não fique para sempre sepultado. Vivendo contigo eu entendi como funcionas: para tudo tem espaço. Talvez sejas geminiana. Contigo é possível e real ser careta, ou muito descolado. Hippie, ou workholic. Viver de MC Donalds, ou só se alimentar da mais corretamente produzida comida vegan. Cabem na tua voz plural discursos de muito amor e, infelizmente, os de muito ódio. Eu já sei, me falaste, e eu aprendi, que garantir a tal da freedom significa permitir a existência até do que eu discordo porque vejo como mal. O ser humano é isso e és assim, não calas nada. De novo, mostraste não só as tuas, mas as nossas chagas. Tenho medo porque te vi sendo o futuro do mundo e também o retrocesso.

Nos decepcionaste outra vez. A mim, sim. Mas também à minha amiga negra e judia que hoje faz as malas com a família. Abandonaste minha amiga chinesa que nunca tinha tido férias na vida, em 50 anos, e te reconhecia como um novo mundo. Desapontaste aquele meu amigo árabe, arquiteto famoso, que precisava esconder a própria crença dos seus conterrâneos para não ser morto e foi livre no teu peito. Vacilaste com minha amiga coreana que tentava fugir da casa do pai para teus braços. Deixaste na mão aquele meu amigo trans de Budapeste, que só aí pode ser o que sempre foi. Não sei o que diremos de ti agora, estamos todos em pé na esquina esperando o próximo passo.

Tu garantes os episódios atrozes, sim, mas também as voltas por cima, não é? Me promete que sim. Diz que é verdade. Que, como nos teus filmes, o bem fala baixo, mas vence. Que não é só na estátua de NY que teu título continuará invicto. Que o Black Power venceu e não morreu. Jura? Jura para mim, por toda aquela nossa relação íntima em segredo?

Estive em prantos e agora fico de pé. Me levanto porque te experimentei não como te vendes, mas como és quando crua, em essência, além das fotografias, no sorriso de quem te torna. Naquele mar gelado pra onde corri com roupas no inverno e nas flores que plantei na primavera. Teu maior espetáculo de luzes não é a Broadway, amor, é aquele céu de estrelas que discreta me mostraste quando deitei no chão de Yosemite. Não nos abandona agora. Se não calas ninguém, não deixa que eles nos calem.

Tem um mundo atrás de ti, América.

Ficou difícil me despedir quando as famílias das duas casas vizinhas vieram dar tchau. Famílias tradicionais americanas, sabe, loiros, de filhos gordinhos e olhos azuis. Eles entraram juntos na nossa garagem bagunçada com quadros, manchada de tintas e com bitucas espalhadas. E me abraçaram de igual para igual. Peito no peito. Eu, a brown, latina, que morava ali com a namorada e com um filipino. Depois o B., meu novo irmão negro, de quase dois metros, se desfez em lágrimas salgadas que escorriam no meu colo. Sabe, foda-se Trump. Chorei porque toda pessoa que conheci ali me abraçou com amor antes de perguntar quem eu era. Chorei porque soube que só assim virá a paz pro mundo. Essa convivência demonstrada condensada no último ato foi a maior lição que aprendi na América. Minha redenção. I won’t lose my hope.