Marcelo Marques

3 dias depois da chacina tudo continua como dantes no quartel de abranges. OAB quer explicação.

imageA Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA) cobrou ontem do governo estadual uma “investigação célere” sobre o assassinato de 35 pessoas, sendo 25 delas com características de execuções sumárias, entre a manhã de sexta-feira, 20, e a manhã de segunda-feira,23, após a morte do soldado PM Rafael da Silva Costa, durante confronto armado com assaltantes em fuga. A entidade também lamentou a morte do soldado.

Os números da matança foram atualizados pelo governo de Simão Jatene (PSDB), que no sábado, em nota oficial, havia apontado 27 homicídios ao mesmo tempo em que reconhecia que os crimes estariam ligados à morte do militar. O presidente da OAB, Alberto Campos, diz em nota que o Estado precisa “esclarecer os conflitos e as violações ocorridas nesta tragédia”.

Segundo Campos, infelizmente o Pará vem “amargando o quarto lugar no ranking de mortes por intervenção policial”. Ele cita dados do Conselho Nacional do Ministério Público, que em 2016 apontou o total de 237 mortes provocadas por esse tipo de intervenção. Além disso, observa que ano passado o Pará registrou 4.196 mortes violentas, representando um aumento de 11,2% em relação a 2015.

Para o deputado Carlos Bordalo (PT), que foi o relator em 2015 da CPI das Milícias, há “indícios muito fortes de envolvimento de milícias e grupos de extermínio” nessa matança do último final de semana. Bordalo disse ao Ver o Fato que na volta do recesso parlamentar irá propor ao presidente da Assembleia Legislativa, Márcio Miranda, a formação de uma comissão externa de acompanhamento das investigações que foram determinadas pelo governador Simão Jatene para identificar e punir os autores das mortes.

Bordalo chama a atenção para o “modus operandi” dos assassinos, afirmando que foi o mesmo detectado pela CPI das Milícias. E faz uma observação preocupante: “a morte que eu vou pegar como exemplo nesse caso todo é a morte de um rapaz no bairro Curuçambá, com denúncias fortes de que um carro da polícia veio antes da própria polícia recolher os artefatos que ficaram depois das execuções, para fazer a limpeza da área”.

“A existência de milícias e grupos de extermínio no Pará, apesar de sobejamente comprovado tanto pelo relatório da CPI entregue a 2 anos atrás, como pelos fatos cotidianos fartamente noticiados todos os dias. As respostas à morte de policiais quando este pertence à batalhões de elite vem se repetindo desde 1994 na chacina do Tapanã. 22 anos depois voltamos a constatar que além de continuarem, assume agora proporções mais abrangentes, contundentes e ousadas como o ataque na noite do dia 20 à um batalhão da PM no Maguari”, declarou Bordalo.
Para ele, são “grupos perigosos e violentos, com ramificações nas próprias corporações, por isso a presença de força de investigação externa é essencial. Parece que finalmente o governador solicitou a colaboração federal”, resumiu o deputado.

Sigilosos – O diretor geral do Centro de Perícias Científicas (CPC) Renato Chaves, Orlando Salgado, depois de liberar para a polícia o resultado dos exames cadavéricos das 35 vítimas, informou que os peritos “encontraram características de execução em alguns dos assassinatos”, mas não disse em quantos casos foram identificadas tais semelhanças. O Ver o Fato pediu cópia dos laudos para analisar, mas o órgão negou, alegando que só quem pode liberar tais informações à imprensa é a Secretaria de Segurança Pública.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil é quem cuida dos inquéritos sobre os crimes, mas por determinação superior se nega a divulgar a relação com os nomes de todas as vítimas e detalhes sobre cada morte, alegando “questões de segurança e sigilo nas investigações”. Em vários bairros de Belém, Ananindeua e Marituba familiares e amigos, entre a dor e a revolta, sepultaram seus mortos.

Rerisson Reinaldo Simões, 22 anos, por exemplo, foi velado em uma igreja evangélica. no bairro do Telégrafo. A morte dele ocorreu durante a madrugada próximo ao canal da travessa 14 de março. Ele já tinha servido ao Exército e atualmente, desempregado, ajudava uma irmã na venda de salgadinhos. Homens encapuzados em uma carro vermelho pararam perto de Simões e atiraram contra quatro pessoas, que saíram feridas. Ele foi morto com oito tiros.

Outros homens, também encapuzados, em um carro branco, mataram Fagner Luiz Lobato, de 30 anos, quando o rapaz voltava para casa após ter comprado remédio numa farmácia para um familiar. Ele morava em Ananindeua e recebeu vários tiros na cabeça e no peito, morrendo na hora.

O mesmo destino teve Edivaldo Rodrigues Gonçalves, que residia no bairro Águas Lindas, também em Ananindeua. Ele, que era pedreiro, estava sentado na porta de casa quando foi abordado por homens que estavam num carro preto e fuzilado com vários disparos. Testemunhas viram o carro se afastar a toda velocidade do local. Nesses três casos, como em outros, as vítimas não tinham passagens pela polícia.

Carlos Mendes